Um Sucesso Sem Nome

Era quase meia-noite quando Ricardo, Founder de uma empresa de tecnologia com 88 funcionários, desligou as luzes da sala de reuniões. Mais um trimestre batendo metas. Mais um board satisfeito. Mais uma rodada de reconhecimento público. Mas enquanto o elevador descia, ele se pegou com uma pergunta que, nos últimos dezoito meses, insistia em aparecer nos momentos mais silenciosos:

“Para que tudo isso, afinal?”

Ricardo não estava em crise. Não tinha um burnout, uma depressão, nada disso. Ele dormia bem, mantinha a energia, liderava com certa clareza. Era algo mais sutil e, por isso mesmo, mais perturbador: uma sensação crescente de que o sucesso tinha chegado, mas o sentido havia ficado para trás em algum ponto da jornada.

O que Ricardo estava experimentando tem nome. Viktor Frankl, neurologista, psiquiatra e sobrevivente do Holocausto, chamou de vácuo existencial: o estado em que a ausência de significado se torna o principal vetor de sofrimento humano. Frankl observou esse fenômeno décadas antes da era corporativa moderna, mas sua tese é hoje mais relevante do que nunca para aqueles que lideram organizações complexas.

Este artigo explora o que a logoterapia, a abordagem terapêutica desenvolvida por Frankl, tem a dizer diretamente ao C-suite. Não como filosofia abstrata, mas como framework aplicável para líderes que alcançaram o topo e ainda buscam uma razão genuína para estar lá.

91% dos líderes sênior relatam momentos de desconexão entre suas realizações profissionais e seu senso de propósito pessoal

Frankl no C-suite: Uma Improvável Relevância

Viktor Frankl publicou Em Busca de Sentido em 1946, após sobreviver a quatro campos de concentração nazistas, incluindo Auschwitz. O livro documenta sua observação de que os prisioneiros com maior probabilidade de sobreviver psicologicamente eram aqueles que encontravam, ou criavam, algum sentido em sua experiência, por mais atroz que fosse.

A partir dessa observação, ele desenvolveu a logoterapia: uma abordagem psicoterápica que posiciona a busca por sentido como a principal força motivacional do ser humano, acima, inclusive, do prazer (Freud) ou do poder (Adler). Frankl argumentou que os humanos podem suportar quase qualquer como se souberem o porquê.

Para líderes executivos, essa tese tem uma aplicação direta e frequentemente subestimada: o desempenho sustentável não é função apenas de competência técnica, resiliência emocional ou capital social. É função, em medida significativa, da clareza sobre o porquê da própria liderança.

“Você pode resistir a quase qualquer como se tiver clareza sobre o porquê.”

Frankl, adaptado ao contexto executivo

Isso não é metáfora motivacional. Neurociência contemporânea valida a intuição de Frankl: pesquisas de Steger et al. (Journal of Counseling Psychology, 2008) demonstram que indivíduos com alto senso de significado apresentam menor reatividade ao cortisol em situações de estresse, maior ativação do córtex pré-frontal em tomada de decisão e maior tolerância à ambiguidade, todas competências críticas para líderes em contextos de alta pressão.

A pergunta que a logoterapia coloca ao executivo não é “como você pode ser mais eficiente?” ou “quais são seus valores?”. A pergunta é mais radical e, por isso mesmo, mais transformadora: o que a vida está pedindo de você agora, neste papel específico?

O Vácuo Existencial Executivo: Por Que o Topo Pode Ser um Lugar Vazio

Existe um paradoxo silencioso na trajetória de muitos executivos de alto desempenho: quanto maior o sucesso externo, maior a probabilidade de confrontar o que Frankl chamou de frustração existencial — a sensação de que o movimento para frente não mais produz a sensação de progresso interno.

Isso ocorre por um conjunto de razões que a logoterapia permite mapear com precisão clínica.

Primeiro: a ascensão executiva frequentemente envolve um processo de progressiva substituição de significado intrínseco por validação extrínseca. O jovem profissional motivado por curiosidade genuína, impacto no cliente ou paixão pelo produto vai, ao longo dos anos, sendo treinado a valorizar métricas, posições e reconhecimento. Quando esses marcadores externos chegam, e para muitos CHROs, CEOs e diretores, eles chegam, o sistema de recompensa que foi construído ao longo de décadas encontra… vazio.

Segundo: o cargo executivo frequentemente remove o líder das atividades que originalmente geravam sentido. O engenheiro apaixonado que se tornou CTO pode passar 80% do tempo em reuniões de governança. A terapeuta que fundou uma clínica e agora dirige uma rede hospitalar pode não ver um paciente há anos. Frankl chamaria isso de distanciamento do sentido concreto, e seus efeitos são cumulativos.

Terceiro: a solidão estrutural do poder cria uma barreira à autenticidade existencial. O executivo que levanta a questão do sentido em um board meeting ou com sua equipe corre o risco real de ser interpretado como fragilidade, crise ou desalinhamento estratégico. O resultado é uma supressão sistemática das perguntas mais importantes, justamente as que a logoterapia propõe como centrais.

67% dos CEOs relatam sentir-se incapazes de discutir questões existenciais sobre seu papel

Os Três Caminhos para o Sentido: Frankl Aplicado à Liderança

A logoterapia identifica três vias pelas quais o ser humano pode encontrar significado. Para executivos, cada uma dessas vias tem uma expressão específica e uma forma específica de deterioração quando negligenciada.

1. Valores de Criação: O Que Você Produz ou Contribui

A primeira via do sentido é a mais familiar ao mundo corporativo: o sentido que emerge daquilo que criamos, construímos ou contribuímos para o mundo. Para um executivo, isso inclui produtos que impactam vidas, organizações que empregam e desenvolvem pessoas, e decisões que moldam setores inteiros.

O problema não é a ausência de criação, a maioria dos líderes sênior produz muito. O problema é a desconexão entre o que é produzido e a percepção de seu significado. Quando um CEO aprova o Q3 roadmap sem sentir conexão real com o impacto daquelas decisões em pessoas concretas, os valores de criação estão tecnicamente presentes, mas existencialmente ausentes.

A intervenção logoterapêutica aqui é simples mas radical: reconstruir cadeias de significado concretas. Qual decisão que tomei hoje chegou a qual pessoa específica? Qual produto que aprovei transformou qual vida particular? Não como exercício de relações públicas, mas como prática de reconexão existencial.

2. Valores de Experiência: O Que Você Recebe do Mundo

A segunda via é frequentemente negligenciada por líderes orientados a performance: o sentido que emerge da experiência de beleza, amor, verdade e conexão genuína. Frankl argumentava que receber, seja uma conversa profunda, uma relação autêntica, uma obra de arte, a contemplação de uma ideia complexa, é tão constitutivo de sentido quanto produzir.

Para o executivo cujo calendário é um encadeamento ininterrupto de reuniões instrumentais, essa via está sistematicamente bloqueada. A consequência não é apenas satisfação reduzida, mas um estreitamento perceptivo: a capacidade de enxergar nuances, possibilidades e conexões não óbvias diminui quando o líder não tem espaço para experiências não instrumentais.

Isso tem implicações diretas para a qualidade de liderança: um CEO que não alimenta sua própria capacidade de experiência genuína tende a liderar de forma progressivamente mais mecânica e menos criativa, mesmo que suas métricas de performance se mantenham estáveis por anos antes de começarem a deteriorar.

“O líder que não tem tempo para experiência profunda logo não terá profundidade para liderar.”

3. Valores de Atitude: Como Você Enfrenta o Sofrimento Ineviável

A terceira via é a mais paradoxal e, segundo Frankl, a mais poderosa: o sentido que emerge da forma como enfrentamos aquilo que não podemos mudar. Toda trajetória executiva inclui fracassos, perdas, decisões com consequências dolorosas e limitações estruturais incontornáveis.

A logoterapia não propõe que o sofrimento seja negado ou transcendido, propõe que a atitude com que o enfrentamos se torna, em si, uma fonte de sentido. O CFO que conduz uma reestruturação dolorosa com integridade e cuidado pelas pessoas impactadas está exercendo valores de atitude. O CEO que admite publicamente um erro estratégico e conduz a empresa pela correção está fazendo o mesmo.

Essa via tem uma aplicação direta para líderes que operam em contextos de alta ambiguidade: a incerteza estrutural do cargo executivo pode ser fonte de angústia existencial ou fonte de sentido, dependendo da postura adotada diante dela. Frankl chamava isso de liberdade de atitude: a última liberdade humana, que nenhuma circunstância pode remover.

O Caso de Fernanda: Quando o Sentido se Torna Estratégia

Fernanda, CHRO de uma empresa de varejo com presença em 6 estados, chegou ao processo terapêutico integrativo não porque algo havia dado errado, mas porque algo havia dado certo demais, rápido demais. Em quatro anos, ela havia implementado uma transformação de cultura que virou referência no setor. O time cresceu 40%. O turnover caiu pela metade. O conselho queria apresentá-la como case de sucesso.

E ela se sentia, nas próprias palavras, “funcionando como uma máquina muito bem calibrada que esqueceu para que serve.”

Ao longo de doze meses de acompanhamento integrativo, combinando psicoterapia profunda, práticas de autoconhecimento baseadas em evidências e o framework da logoterapia, Fernanda realizou dois movimentos fundamentais.

Primeiro, ela mapeou a distância entre o que a havia movido a entrar na área de pessoas, uma crença genuína no potencial de transformação humana, e o que ocupava de fato seu tempo como CHRO: governança, compliance, reportes e gestão de conflitos políticos. Ela não abandonou nenhuma dessas responsabilidades. Mas passou a exercê-las com uma clareza diferente sobre o porquê de cada uma delas.

Segundo, ela criou o que chamou de “âncoras de sentido”: interações regulares e não instrumentais com colaboradores de diferentes níveis hierárquicos com o objetivo de manter viva a experiência concreta do impacto de seu trabalho em pessoas reais.

Oito meses depois, sua avaliação de liderança pelo board estava no percentil 94. Mas o que ela valorizava mais era a capacidade de acordar segunda-feira com algo que se assemelhava ao que, quando jovem, chamava de entusiasmo.

*Os nomes e detalhes identificáveis foram modificados para preservar a privacidade.

Logoterapia na Prática: Cinco Perguntas para o C-suite

Frankl não era terapeuta de respostas, era terapeuta de perguntas. A logoterapia opera fundamentalmente por meio de questões que a pessoa ainda não se permitiu fazer com seriedade. Para executivos, essas são as cinco perguntas que o trabalho logoterapêutico frequentemente revela como centrais:

  1. O que, no meu papel atual, só eu posso fazer e que realmente importa para além das métricas?
  2. Quais decisões que tomo cotidianamente ainda me conectam com aquilo que originalmente me moveu a liderar?
  3. Há sofrimentos ou limitações em meu contexto atual que estou evitando, em vez de enfrentar com integridade?
  4. Que tipo de impacto concreto, em pessoas específicas, meu trabalho produz? Eu tenho contato real com esse impacto?
  5. Se eu pudesse redesenhar meu papel mantendo as responsabilidades mas recuperando o sentido, o que mudaria?

Essas são perguntas de profundidade terapêutica, e sua seriedade requer um espaço igualmente sério para respondê-las. Um espaço que a maioria dos líderes não encontra em reuniões de equipe, sessões de planejamento estratégico ou conversas com advisors focados em performance.

Por Que Isso Importa para as Organizações — Não Apenas para os Líderes

Há uma razão estratégica, além da humanitária, para que CHROs e boards começem a levar o sentido executivo a sério: líderes sem clareza existencial sobre seu papel tomam decisões de qualidade inferior.

Não porque sejam menos inteligentes ou menos competentes. Mas porque a ausência de sentido produz um conjunto de tendências cognitivas e emocionais com impacto direto na liderança organizacional.

Conformidade defensiva: líderes em vácuo existencial tendem a proteger o status quo em vez de liderar mudança genuína, porque a mudança exige convicção, e convicção requer sentido.

Presentismo estratégico: o foco no curto prazo aumenta quando o líder perdeu conexão com o propósito de longo prazo da organização. A trimestralização excessiva das decisões tem raízes, em muitos casos, em uma crise existencial não reconhecida.

Cascata de desengajamento: líderes que não encontram sentido em seu próprio papel raramente conseguem inspirar engajamento genuíno em suas equipes. O desengajamento executivo costuma preceder, e frequentemente causar, o desengajamento organizacional.

52% da variância em engajamento de equipes pode ser atribuída ao comportamento direto do líder imediato

A logoterapia, nesse contexto, não é um benefício de bem-estar pessoal para o executivo. É uma intervenção com retorno organizacional mensurável. Quando um CEO ou CHRO reconecta genuinamente com o sentido de seu papel, isso se manifesta em como ele comunica, como decide e como desenvolve as pessoas ao seu redor.

Frankl Tinha Razão: O Porquê Ainda é Tudo

Viktor Frankl escreveu, nos campos de concentração de Auschwitz, que o ser humano pode suportar quase qualquer sofrimento se tiver clareza sobre seu propósito. Noventa anos depois, líderes que operam em condições de conforto relativo enfrentam uma versão invertida do mesmo desafio: como manter o sentido diante não do sofrimento extremo, mas do sucesso vazio.

A logoterapia não oferece uma resposta pronta, e é precisamente isso que a torna valiosa para o C-suite. Em vez de fornecer um propósito pré-fabricado ou um framework de cinco passos para o sentido, ela coloca a pessoa diante da responsabilidade de descobrir, ou criar, o próprio porquê.

Para líderes que chegaram ao topo e descobriram que o topo é, paradoxalmente, um lugar de perguntas mais profundas do que respostas: significa que está no momento em que a liderança pode se tornar genuinamente transformadora, não apesar da busca por sentido, mas por meio dela.

“A questão não é o que você espera da vida, mas o que a vida espera de você.”

Viktor Frankl

Referências & Leituras Complementares

  • Frankl, V. E. (1946). Man’s Search for Meaning. Beacon Press.
  • Steger, M. F., et al. (2008). The Meaning in Life Questionnaire. Journal of Counseling Psychology, 55(2), 80–93.
  • Gallup (2023). State of the Global Workplace: Employee Engagement & Leadership Influence.
  • Korn Ferry (2024). CEO Loneliness and Existential Leadership Gap.
  • Harvard Business Review (2023). The Purpose-Performance Gap in Senior Leadership. HBR Research Report.
  • Wong, P. T. P. (2012). The Human Quest for Meaning. Routledge.