Em agosto de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego publicou a Portaria MTE nº 1.419/2024, atualizando a Norma Regulamentadora nº 1. A mudança pode parecer burocrática. Não é.
Pela primeira vez na história da legislação trabalhista brasileira, riscos psicossociais — como burnout, estresse crônico, assédio e sobrecarga mental — passam a ter o mesmo peso legal que riscos físicos, químicos e biológicos. Eles precisam ser identificados, avaliados, documentados e gerenciados dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos de qualquer empresa com regime CLT.
O prazo para adequação é 26 de maio de 2026. A partir dessa data, a fiscalização começa com poder de autuação. O contexto que levou o governo a isso é direto: em 2024, o Brasil registrou mais de 472 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número em uma década, com crescimento de 68% em relação a 2023.
Esse artigo explica o que mudou, o que sua empresa precisa fazer, como programas de saúde mental se enquadram na norma, e onde o Brasil está em relação ao que países da Europa e os EUA já fazem.
O que é a NR-1 e o que mudou agora
A NR-1 é a norma-mãe da segurança e saúde no trabalho no Brasil. Ela define as diretrizes gerais que todas as outras normas seguem e institui o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), os instrumentos pelos quais empresas identificam, avaliam e controlam riscos no ambiente de trabalho.
Até 2024, a NR-1 já exigia gerenciamento de riscos físicos, químicos, biológicos, ergonomômicos e de acidentes. Mas não havia menção explícita aos riscos psicossociais. Isso gerava insegurança jurídica: muitas empresas simplesmente ignoravam o tema porque a norma não era clara sobre sua obrigatoriedade.
A Portaria 1.419/2024 encerrou essa dúvida. A coordenadora-geral de Fiscalização em SST, Viviane Forte, foi direta ao anunciar a mudança: “Os empregadores devem identificar e avaliar riscos psicossociais em seus ambientes de trabalho, independentemente do porte da empresa.”
O que são riscos psicossociais segundo a NR-1
A norma define riscos psicossociais como fatores relacionados à organização, condições e relações de trabalho que podem afetar a saúde mental, física e social dos trabalhadores. Na prática, incluem:
- Metas excessivas e pressão desproporcional sobre resultados com prazos impossíveis.
- Jornadas extensas e sobrecarga crônica que impedem recuperação entre ciclos de trabalho.
- Ausência de suporte da liderança e falta de reconhecimento.
- Assédio moral e sexual e comportamentos abusivos no ambiente de trabalho.
- Conflitos interpessoais recorrentes sem mecanismos de resolução.
- Falta de autonomia e controle sobre a própria forma de trabalhar.
- Ambiente tóxico, incluindo comunicação falha, desequilíbrio entre esforço e recompensa e isolamento.
O que sua empresa é obrigada a fazer — na prática
A norma não determina soluções específicas. Ela determina processo: identificar, avaliar, documentar e agir. O que isso significa na prática para RH, Segurança do Trabalho e lideranças:
1. Incluir riscos psicossociais no inventário do PGR
O Programa de Gerenciamento de Riscos já existia nas empresas obrigadas a tê-lo. Agora, o inventário de riscos precisa incluir explicitamente os fatores psicossociais ao lado dos riscos físicos, químicos e biológicos. Isso significa mapear quais cargos, setores e dinâmicas de trabalho expõem colaboradores a esses fatores.
2. Conduzir diagnóstico organizacional
A identificação dos riscos psicossociais exige pesquisa ativa: pesquisas de clima, entrevistas individuais, ferramentas de autoavaliação e análise de dados de afastamento. O diagnóstico precisa ser documentado. Auditores fiscais vão verificar dados de afastamentos por doenças como ansiedade e depressão e entrevistar trabalhadores durante inspeções.
3. Elaborar plano de ação com cronograma e responsáveis
Após identificar e avaliar os riscos, a empresa precisa de um plano de ação estruturado: medidas preventivas definidas, responsáveis nomeados e cronograma de implementação. O foco do guia do MTE é claro: as intervenções devem se concentrar na modificação das condições organizacionais do trabalho, não apenas no suporte individual.
4. Capacitar lideranças
A norma implica, e o Guia do MTE explicita, que gestores precisam ser capacitados para perceber sinais de risco psicossocial nas equipes, manejar conversas difíceis e encaminhar colaboradores para suporte. Isso inclui treinamento em inteligência emocional, gestão de conflitos e identificação de sinais de sofrimento mental.
5. Documentar tudo
Todo o processo — diagnóstico, plano de ação, capacitações, medidas implementadas e revisões periódicas — precisa estar registrado no PGR ou na Avaliação Ergonomômica Preliminar (AEP), conforme as exigências da norma integrada à NR-17. Sem documentação, a empresa não tem como demonstrar conformidade durante uma inspeção.
6. Investigar afastamentos e adoecimentos ocupacionais
A NR-1 também ampliou a obrigação de análise de acidentes e doenças do trabalho para todos os empregadores, não apenas os obrigados a constituir SESMT. Qualquer afastamento por transtorno mental precisa ser investigado quanto à sua relação com as condições de trabalho.
“No Judiciário, a ausência de gestão de riscos psicossociais facilitará a comprovação de culpa da empresa em casos de burnout, depressão ou ansiedade ocupacional. A cobrança por ambientes psicologicamente saudáveis é urgente.”
Advogado trabalhista Ricardo Calcini — Migalhas, 2025O impacto específico na liderança: o dado que a norma não diz, mas implica
A NR-1 fala em força de trabalho. Mas há um dado que torna a questão da liderança especialmente crítica para as empresas: líderes em burnout não são apenas vítimas do risco psicossocial. São, sem perceber, fontes dele.
A Gallup documenta que 70% do engajamento de uma equipe é diretamente influenciado pelo gestor. Um líder em sofrimento psíquico não identificado cria, inadvertidamente, um ambiente de maior risco para todos ao redor: menor clareza nas direções, maior irritabilidade, menor tolerância a erros, cultura que pune vulnerabilidade.
O que isso significa para a conformidade com a NR-1: se o diagnóstico organizacional identificar alto risco psicossocial em uma área, a saúde mental da liderança daquela área é fator causal a ser investigado. Ignorar isso é produzir um diagnóstico incompleto que não resistirá a uma inspeção mais aprofundada.
Como programas de saúde mental contratados se enquadram na NR-1
Uma dúvida frequente de CHROs e líderes de RH: contratar um programa de saúde mental para a empresa satisfaz a NR-1?
A resposta é: depende do que o programa faz. E a distinção é importante tanto para conformidade legal quanto para resultado real.
O que a NR-1 não exige, mas muitos programas entregam
A norma não obriga a contratação de psicólogos fixos nem de plataformas específicas de bem-estar. O que ela exige é processo: identificação dos riscos, avaliação, plano de ação e documentação. Programas de telemedicina, apps de mindfulness e EAPs genéricos podem ter valor complementar, mas não substituem o processo de gestão de riscos.
O que conta para conformidade com a NR-1
Para que um programa contribua efetivamente para a conformidade, ele precisa ter componentes de diagnóstico organizacional, não apenas suporte individual. A norma foca na modificação das condições organizacionais do trabalho, não apenas no cuidado do trabalhador individualmente após o adoecimento. Programas que só tratam os sintomas sem chegar às causas organizacionais atendem parcialmente.
O que diferencia um programa robusto para fins da NR-1
Um programa que realmente sustenta a conformidade com a NR-1 precisa incluir:
- Diagnóstico dos riscos psicossociais documentado e integrado ao PGR.
- Capacitação de lideranças para identificação de sinais e manejo de situações de risco.
- Acompanhamento terapêutico disponível para colaboradores e líderes, com dados de utilização.
- Rastreamento de indicadores ao longo do tempo: afastamentos, utilização, clima, turnover.
- Evidência de modificação das condições de trabalho, não apenas suporte aos sintomas.
Como o Brasil se compara com EUA, Reino Unido e Europa
A NR-1 atualizada coloca o Brasil em movimento na direção do que outros países já constroem há mais tempo. A comparação ajuda a entender o tamanho do passo e o que ainda está por vir.
Estados Unidos: sem lei federal específica, mas com múltiplos mecanismos
Os EUA não têm uma lei federal que obrigue as empresas a gerir especificamente riscos psicossociais, como a NR-1 faz. O que existe são três mecanismos combinados: a ADA (Americans with Disabilities Act), que exige acomodações razoáveis para colaboradores com condições de saúde mental; a FMLA (Family and Medical Leave Act), que garante até 12 semanas de licença para tratamento; e a OSHA, que exige ambiente saudável e publicou em 2024 um factsheet específico sobre saúde mental.
Em 2025, as agências federais americanas anunciaram que não vão aplicar a regra de paridade de saúde mental de 2024, que obrigaria planos de saúde a cobrir saúde mental de forma equivalente à saúde física. Um recuo regulatório que contrasta com o avanço brasileiro.
Reino Unido: dever de cuidado com força jurídica crescente
O Reino Unido opera sob um modelo de “duty of care” que, na prática, é mais exigente do que parece. Em 2024, emendas às regulações de Primeiros Socorros incluíram explicitamente saúde mental nas necessidades de avaliação de todas as empresas. O impacto jurídico já é visível: em fevereiro de 2024, um tribunal britânico concedeu £300.000 de indenização a um gerente que desenvolveu depressão grave após seu empregador ignorar advertências médicas sobre sobrecarga de trabalho.
Europa: a estrutura mais avançada do mundo
A União Europeia tem o framework mais abrangente sobre saúde mental no trabalho. O ESRS S1, dentro do CSRD, exige que empresas reportem incidentes de saúde e segurança incluindo doenças mentais explicitamente. Para empresas com presença na UE, isso é obrigação legal escalonada entre 2024 e 2026.
O que o Brasil tem de diferente — e melhor
A NR-1 tem algo que os EUA não têm: obrigatoriedade formal para todas as empresas CLT, independente do porte. Não é recomendação de boas práticas. É norma com poder de autuação.
O que falta ao Brasil é o que a Europa e o Reino Unido têm de sobra: jurisprudência consolidada e cultura organizacional construída ao longo de décadas. Aqui, ainda estamos construindo. E o prazo de 2026 é curto para empresas que ainda tratam saúde mental como pauta secundária de RH.
Como a Ethos Apex se posiciona nesse cenário
Programas de saúde mental que as empresas contratam variam enormemente em profundidade. A maioria oferece suporte sintomático: plataformas de terapia online, apps de meditação, linhas de apoio emocional. São recursos com valor. Mas atendem às exigências da NR-1 de forma parcial.
A NR-1 exige que o foco seja na modificação das condições organizacionais que geram o risco. Não apenas no cuidado do colaborador após o adoecimento. Isso muda o tipo de programa que realmente sustenta a conformidade.
O que a Ethos Apex faz é diferente em estrutura e em profundidade. Trabalhamos com executivos e líderes no ponto onde os riscos psicossociais são mais críticos e menos visíveis: a saúde mental do time de liderança que, quando comprometida, gera risco para toda a estrutura abaixo.
O que os programas executivos da Ethos Apex entregam no contexto da NR-1
- Diagnóstico individual da liderança: mapeamento dos fatores de risco psicossocial que afetam cada líder, com dados que alimentam o diagnóstico organizacional exigido pelo PGR.
- Psicoterapia integrativa: acompanhamento terapêutico que não apenas gerencia sintomas, mas trabalha os padrões que tornaram o líder vulnerável ao ciclo de adoecimento.
- Hipnoterapia clínica quando indicada: ferramenta que acessa o sistema nervoso e os padrões inconscientes onde os bloqueios foram criados, resignificando na origem.
- Capacitação de lideranças: desenvolvimento de repertório emocional para identificar riscos psicossociais nas equipes, atendendo diretamente à exigência da NR-1.
- Dados de processo para conformidade: registro de participação e acompanhamento que pode ser integrado à documentação do PGR.
Sua empresa está preparada para a fiscalização de 2026?
A Ethos Apex trabalha com organizações que querem ir além do compliance mínimo — construindo uma estrutura real de saúde mental executiva que atende a NR-1, fortalece a liderança e produz resultados mensuráveis.
Conhecer os ProgramasPerguntas frequentes sobre a NR-1 e saúde mental
Conclusão
A NR-1 não é apenas uma obrigação legal. É o reconhecimento formal de que saúde mental é questão de segurança do trabalho, com o mesmo peso de qualquer risco físico no ambiente corporativo.
Para as empresas que ainda tratam bem-estar como iniciativa periférica de RH, o prazo de 2026 é curto. Para as que já entendem que a saúde da liderança determina a saúde das equipes, que as equipes determinam os resultados e que os resultados sustentáveis vêm de organizações psicologicamente seguras, a NR-1 é confirmação de algo que já deveriam estar construindo.
O Brasil está entrando no mesmo ciclo que países europeus percorreram nas últimas duas décadas. A diferença é que aqui estamos podendo aprender com o que funcionou e o que não funcionou lá. Quem se mover agora chega diferente em 2026.
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