Em 1580, Michel de Montaigne concluiu os dois primeiros volumes dos seus Ensaios e partiu em uma viagem de 15 meses pela Europa. Suíça, Alemanha, Áustria, Itália. Ele tinha 47 anos, era magistrado, intelectual reconhecido, alguém que dedicara anos à reflexão. E ainda assim foi. Para ver. Para ouvir. Para se deslocar do que conhecia.
Montaigne não viajava como turista nem como diplomata. Viajava como ato filosófico. Para ele, o contato com outras culturas, outros costumes, outras formas de organizar o mundo, era parte do que ele chamava de dever de vida. A ilusão de que já se sabe o suficiente era, em sua visão, um dos erros mais custosos que um ser humano pode cometer.
Essa ideia, nascida no século XVI em meio às guerras de religião da França, tem mais a dizer à liderança contemporânea do que boa parte do que se publica sobre gestão e desenvolvimento pessoal.
A armadilha da competência consolidada
Existe um paradoxo silencioso na trajetória de muitos líderes. O mesmo caminho que os leva ao topo das organizações — acumular conhecimento, ganhar experiência, desenvolver convicções sobre como as coisas funcionam — vai construindo gradualmente uma zona de certeza que começa a substituir a curiosidade.
A psicologia cognitiva tem um nome para o mecanismo: Efeito Dunning-Kruger. Descrito em 1999 pelos pesquisadores David Dunning e Justin Kruger, ele documenta a tendência de que quem tem conhecimento limitado em uma área tende a superestimar a própria competência. Mas há um aspecto menos citado do mesmo fenômeno: à medida que o conhecimento real cresce, o risco não desaparece. Ele muda de forma. O especialista com décadas de experiência pode desenvolver um tipo diferente de viés: a convicção de que o que funcionou no passado continuará sendo a resposta certa no futuro.
Darwin observou isso antes de Dunning e Kruger colocarem em linguagem científica: “A ignorância frequentemente gera mais confiança do que o conhecimento.” Bertrand Russell foi ainda mais direto: no mundo moderno, os estúpidos estão cheios de certezas, enquanto os inteligentes estão cheios de dúvidas. Nenhum dos dois é elogio. Mas a dúvida, quando bem direcionada, é ferramenta de crescimento. A certeza prematura é o seu obstáculo.
No contexto da liderança, esse padrão tem consequências concretas. Líderes que superestimam sua compreensão de um problema tendem a tomar decisões sem consultar quem tem mais informação. Interpretam resistência como incompetência dos outros. Param de fazer as perguntas que mais importam porque partem do pressuposto de que já sabem as respostas.
O que Montaigne entendeu sobre conhecer-se através do outro
Quando alguém perguntava a Montaigne de onde ele era, ele respondia com a frase que usava para citar Sócrates: “Sou do mundo.” Não era afetação. Era postura filosófica. A recusa de qualquer etiqueta geográfica, cultural ou intelectual que pudesse enrijecer sua forma de ver.
Nos Ensaios, Montaigne critica duramente o que ele chamava de “cabeças de pote”: pessoas que acumulavam erudição sem que isso as tornasse mais capazes de pensar, agir ou se relacionar com o mundo. Em suas palavras: “Cuidamos apenas de encher a memória, e deixamos vazios o entendimento e a consciência.” A crítica era ao seu tempo. E permanece atual.
A viagem, para Montaigne, não era fuga. Era o método mais honesto de confrontar as próprias limitações. Quando você se desloca, fisicamente ou intelectualmente, os referenciais que usava para julgar tudo são temporariamente suspensos. Você se vê obrigado a observar, a perguntar, a comparar. É desconfortável. E é exatamente esse desconforto que gera aprendizado real.
Há aqui uma nuance antropológica importante. Toda cultura desenvolve o que os antropólogos chamam de etnocentrismo: a tendência de enxergar a própria forma de viver como o padrão a partir do qual os outros são julgados. É um mecanismo de coesão social. Mas, quando não questionado, se torna barreira cognitiva. O líder que nunca saiu da bolha do próprio setor, da própria empresa, da própria visão de mundo, opera com um mapa que pode estar errado sem que perceba.
Montaigne viajou durante um período em que a Europa estava literalmente se reconhecendo como parte de um mundo maior, com os Descobrimentos revelando povos, culturas e formas de existir completamente distintas do que se conhecia. A resposta mais comum da época era o julgamento moral desses povos. A resposta de Montaigne foi a curiosidade intelectual e, em muitos casos, a admiração. Ele via nos chamados “canibais” virtudes que os europeus haviam perdido. Não por romantismo. Por método.
O cérebro que para de aprender começa a enrijecer
A neurociência confirma o que Montaigne intuía. O cérebro humano tem uma propriedade chamada neuroplasticidade: a capacidade de se reorganizar, criar novas conexões e modificar estruturas existentes em resposta a experiências e aprendizado. Essa capacidade não desaparece na vida adulta, mas precisa ser exercitada ativamente.
Quando paramos de nos expor a informações novas, perspectivas diferentes ou situações que desafiam o que sabemos, o cérebro tende a consolidar os padrões existentes. É eficiente do ponto de vista cognitivo: processar o familiar custa menos energia do que processar o desconhecido. Mas essa eficiência tem um custo. O que era mapa do território vira o próprio território. O modelo mental substitui a realidade.
Pesquisadores que estudam liderança e tomada de decisão identificaram que líderes com alta humildade intelectual — definida como o reconhecimento das limitações do próprio conhecimento combinado com abertura genuína para aprender — tomam decisões de melhor qualidade, criam equipes com maior engajamento e adaptam suas organizações com mais eficácia a mudanças. Não porque sejam menos confiantes. Porque sua confiança está calibrada pela consciência do que não sabem.
“Quanto mais alguém sabe, mais percebe o quanto não sabe. Esse é o paradoxo do conhecimento genuíno.”
Edgar H. Schein, MIT Sloan — sobre “humildade profissional” em liderança
O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein colocou de forma diferente: os limites da linguagem de uma pessoa são os limites do seu mundo. Aplicado à liderança: os limites do que você está disposto a questionar são os limites da sua capacidade de liderar.
A ilusão de ser especial e o preço que ela cobra
Há uma crença que começa a se instalar de forma quase invisível em líderes de alto desempenho: a de que seu trajeto, seu método, sua visão, são superiores. Não necessariamente de forma arrogante ou explícita. Muitas vezes é mais sutil. É a dificuldade de realmente ouvir uma opinião contrária sem já estar formulando a resposta. É a resistência à ideia de que alguém com menos experiência pode ter algo genuíno a ensinar. É o desconforto diante de abordagens radicalmente diferentes das suas.
Montaigne chamava isso de impressão de ser especial. E via nela um obstáculo direto ao crescimento. Em seus Ensaios, ele parte sempre de si mesmo — de suas dúvidas, contradições e limitações — não como confissão de fraqueza, mas como método. Ao se observar honestamente, ele tentava compreender o humano. Ao compreender o humano, entendia melhor os outros.
Essa postura tem paralelo direto no conceito budista zen de shoshin, a “mente de principiante”. O mestre zen Shunryu Suzuki sintetizou em uma frase que atravessou culturas: “Na mente do principiante há muitas possibilidades. Na mente do especialista, poucas.” A especialização fecha portas que a abertura mantém abertas.
Para o líder, a questão não é abandonar a competência. É manter, junto com ela, a disposição de ser surpreendido. De estar errado. De aprender com alguém que sabe menos sobre muitas coisas e mais sobre algo específico que você precisa entender.
Expor-se ao que não se sabe como prática de liderança
A viagem de Montaigne foi literal. A maioria dos líderes não precisa atravessar a Europa para entender o princípio. O deslocamento que importa é o intelectual e o relacional.
Expor-se significa, em termos práticos: sentar-se em reuniões como quem aprende, não como quem já sabe. Fazer perguntas reais, não retóricas. Buscar deliberadamente perspectivas que contradizem as suas. Ler fora da área de domínio. Ter conversas com pessoas em posições radicalmente diferentes das suas, dentro e fora da organização. Errar em público sem transformar isso em fragilidade, mas em sinal de que o processo de pensar está ativo.
A pesquisa de Ronald Heifetz sobre liderança adaptativa aponta que os líderes que navegam melhor em ambientes de alta incerteza — o chamado mundo VUCA — são justamente os que param de buscar apenas soluções técnicas para problemas que exigem adaptação. Problemas técnicos têm resposta dentro do que já se sabe. Problemas adaptativos exigem aprender algo que ainda não se sabe. E a maioria dos grandes desafios de liderança são adaptativos.
O filósofo americano John Dewey, que influenciou gerações de educadores, defendia que o aprendizado real só ocorre quando há experiência seguida de reflexão. Não basta viver. É preciso processar o que a experiência revelou. Montaigne fazia isso em seus Ensaios ao escrever sobre si mesmo. Os líderes fazem isso quando criam espaço — na agenda e na mente — para pensar sobre o que estão aprendendo, e não apenas sobre o que estão entregando.
O que a humildade intelectual produz nas equipes
Líderes que demonstram abertura para aprender não apenas crescem individualmente. Eles criam condições para que as equipes ao redor também cresçam.
A pesquisa de Amy Edmondson sobre segurança psicológica mostrou que equipes de alto desempenho têm uma característica em comum: seus membros sentem que podem falar, questionar e errar sem punição. Essa segurança não vem de políticas de RH. Vem, em grande medida, do comportamento do líder. Quando um líder admite que não sabe, pergunta genuinamente, e muda de posição diante de um argumento melhor, sinaliza para a equipe que o pensamento crítico é bem-vindo.
O efeito inverso é documentado com a mesma clareza. Líderes que operam em modo de certeza consolidada constroem, mesmo sem intenção, culturas onde as pessoas confirmam o que o chefe quer ouvir. Onde as más notícias chegam tarde demais. Onde o dissenso vira risco de carreira. Nesses ambientes, o líder perde acesso exatamente às informações de que mais precisa.
Montaigne dizia que “a sabedoria é uma construção sólida e única, na qual cada parte tem seu lugar e deixa sua marca.” Mas a construção exige que se continue edificando. Um líder que para de aprender não mantém o nível. Começa a perder o que construiu, devagar, enquanto o mundo ao redor segue em movimento.
Conclusão
Montaigne nunca terminou seus Ensaios. Continuou revisando até o fim da vida. Adicionando notas, contradizendo posições anteriores, expandindo o que havia dito. O texto virou palimpsesto de um homem em processo contínuo de pensar.
Isso não era incapacidade de concluir. Era compreensão de que a conclusão definitiva — sobre qualquer coisa que importe — é uma ilusão. E que a disposição de continuar revisando é forma mais honesta de inteligência do que a confiança de quem parou de perguntar.
O dever de não saber, como Montaigne o entendia, não é humildade performática nem renúncia à competência. É a disposição ativa de se manter em movimento. De viajar, literalmente ou não. De se expor ao que ainda não foi compreendido. De tratar o aprendizado não como fase de formação, mas como condição permanente de liderança eficaz.
O líder que acredita ter chegado parou de chegar. O que continua aprendendo continua liderando.
Trabalhar a disposição de aprender exige mais do que boa vontade.
Muitas vezes, o que impede um líder de continuar crescendo são padrões internos que não aparecem na agenda: crenças sobre o que é fraqueza, medos de ser visto como incompleto, identidade construída sobre a imagem de quem já sabe. A Ethos Apex trabalha com líderes nesses processos mais profundos, integrando psicoterapia, neurociência aplicada e filosofia prática.
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